sexta-feira, 23 de julho de 2010

Capítulo I - Das Iniquidades

Há em cada um de nós um Imperador,
um Déspota sem luz
que não mata para não macular seus trajes de realeza
mas manda matar com uma precisão cirúrgica, num corte único e seco.
Há em nós o Déspota,
aquele que vê e consente
aquele que sente e desmente.
Que vira a face ao deparar-se com a injustiça,
pois a vida e morte alheia não lhes são caras
e não superam, em relevância social,
números e estatísticas.
Quanta tirania.
Aquele que isola-se no alto da torre tem as mãos tão ensaguentadas quanto as daquele que crava o punhal.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Dor

estou no topo da montanha,
me sinto sufocado
com meus dedos gelados envoltos nos cotovelos.
de tudo o quanto a minha alma corrói,
a hipotermia é o que menos me dói.
o ar é denso,
tanto quanto era densa
a (efêmera) alegria intensa
que um dia me tocou.
hoje, eu sou o frio
a escuridão,
sem poema e nem prosa,
e qualquer vento que sopra
a minha pele arranha.
eu sou o nada
que se desfez pela chama,
hoje mesmo,
Eu sou a montanha.


"The messenger becomes the message."

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Mantra de um Poeta

não há a intenção de ser bom naquilo que se escreve.
não há arte ou poesia que nos seja palpável.
existe, apenas, aquilo que se vê com os olhos aflitos,
aquilo que só podem ver aqueles que agonizam diariamente,
com a necessidade premente de algo novo.
como um surto, um vírus ou uma fatalidade.
e é dessas fatalidades diárias que sobrevive o homem que escreve.

Guilherme Cavalcante

-

"Perfection, of a kind, was what he was after,

And the poetry he invented was easy to understand;

He knew human folly like the back of his hand,

And was greatly interested in armies and fleets;

When he laughed, respectable senators burst with laughter,

And when he cried the little children died in the streets."

W. H. Auden - Epitaph on a Tyrant












quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Ópera

Início

A vida dorme no porão da minha consciência.
Enquanto isso,
minha alma insurge-se contra meu corpo,
em cortes rápidos e furiosos.
Diante do mar em fúria das minhas ideias céticas,
construo minha pequena canoa...
quanto desgaste...
e num impulso imediato,
como numa reação involuntária dos meus músculos,
eu me lanço violentamente contra a grande onda.


Início II
De repente, a vida me arrebata covardemente
e quando me dou conta,
estou deitado no chão da varanda.
eu não quero beber, não quero fumar ou mesmo festejar...
quero apenas encarar os monstros de tijolo, cimento e cal
que me rodeiam...
e o eterno tilintar das estrelas acima de mim.
Início, Meio e Fim
Olhos de solidão. Dorme o Homem.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Prece

horas devoradas pela realidade,
o Homem da Capa Preta ataca novamente
com seu toque de sombra e seu olhar de censura
orai, irmãos!
somos a face obscura,
o elo perdido...
esperamos o braço nunca estendido
rezem, irmãos!
não há liberdade fora do sonho.


Guilherme.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Prefácio

Não há luz na estrada. Tenho os pés grandes de tanto caminhar. Rumo a tudo que eu não vejo, rumo ao nada. Vejo vultos e sonhos pelo chão, em pedaços, migalhas. Tenho cortes nas mãos e as roupas imundas. Maltrapilho. Pele queimada das horas de dor, olhos aflitos, coração inerte. Quedou-se minha prosa, meu lirismo, meu pôr-do-sol é negro e sarcástico. Durmo na grama verde, embaixo de macieiras. Passa um passarinho, passam dois, quem fica aqui é porque não sabe voar. Eu não vôo, embora sonhe. Emprego não, família não, fortuna não (desconhecida, até o momento). De mim, sei quase nada, dos outros menos ainda, e em nada deixo de perder. Não há vida fora da dúvida. Ego, superego,alterego. Quanto ego! Não conto com a sorte. Nem com azar. Fé, poder, equilíbrio, auto-ajuda, bla,bla, bla. Displicência quanto ao supérfluo. Displicência acima do bem e do mal. Bem. Mal. Tudo a mesma coisa. Coisa: tudo aquilo que não tem nome (esqueci o autor dessa frase). Eu tenho mil coisas na minha cabeça, no meu peito. Coisas que esqueço o que são, que não sei o que são. E que prefiro nem dar nome. Não sei se fui claro. Espero que não.


terça-feira, 8 de setembro de 2009

Tenho muitas coisas mal resolvidas. Cartas a responder, palavras nunca ditas, sentimentos nunca sentidos, enfim, todo tipo de assuntos pendentes. Possuo uma dívida eterna comigo mesmo, dívidas esta que eu procuro, através de todas as maneiras, quitar. Mas parece que é impossível. Como num daqueles quebra-cabeças que falta uma peça, e você tenta num impulso infantil de querer resolver algo de qualquer maneira, substituir a peça ausente por qualquer outra do quebra-cabeças. Mas isso é impossível. A peça, assim como todo sentimento, é único e insubstituível. O que pode ocorrer são apenas meras semelhanças, como entre o desamor e o desprezo, mas nada que possa vir a preencher a lacuna deixada por algo que nunca existiu.

- Você sofre de antropofagia sentimental crônica. Sim, sim. Daí explica-se a constante sensação de vazio em seu estômago e o estado de sonolência nas horas solitárias do dia. Todas as horas são solitárias? Sim, senhor, talvez a melancolia das multidões cause em você essa solidão. Paradoxal? Com certeza, mas se fosse coerente não seria uma patologia, certo? Assim que houver um tratamento adequado, você será avisado, senhor. Passar bem.